Quando comprei minha Shadow 98 em Fevereiro de 2017 com cerca de 60 mil km rodados eu já sabia que enfrentaria alguns desafios e que invariavelmente ela teria alguns problemas. Coisa normal de quem adquire uma moto com quase 2 décadas de uso e que não se sabe exatamente como foi tratada durante esse tempo.
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| Foto de Henrique Rogatto - Shadow 600 expurgando líquido pelo respiro |
O famoso e temido som de chaleira
Nunca tinha realmente pegado a estrada com o objetivo de fazer uma viagem de moto e obviamente arrumava qualquer motivo para poder ir para qualquer lugar de moto. Nos primeiros meses eu não negava qualquer convite para andar de moto. Pois apareceu uma oportunidade de ir até Santos passar um final de semana com minha esposa, que havia ido um pouco antes de carro.Saí da Zona Sul de São Paulo (Santo Amaro) e fui rumo ao litoral paulista para fazer minha primeira viagem sozinho. Era feriado e peguei bastante trânsito para chegar até a Imigrantes e quando consegui dar aquela primeira esticadinha e passar dos 100 km/h, comecei a ouvir um barulho estranho. Era como um grilo, cigarra ou dois metais velhos vibrando na parte inferior do motor.
Sentia que era perto do meu pé esquerdo e achei que se tratava somente de um barulho normal de algum parafuso mal apertado e que depois eu poderia dar um pouco de torque e resolver o assunto. Passei o final de semana e no domingão subimos a Imigrantes rumo à minha casa em São Bernardo do Campo.
Confesso que vim forçando a subida inteira, afinal, queria ver se a moto era realmente capaz de suportar e aproveitei que estava sendo acompanhado. Mas a poucos quilômetros de casa, ainda na rodovia, a luz vermelha da temperatura acendeu e me fez parar a moto para verificar o que estava acontecendo. Coloquei mais água e fui para minha casa, triste.
Depois de pesquisar e conversar com colegas descobri que o barulho era comum e que vinha da bomba d'agua. Não era nada grave que precisasse de um reparo emergencial, mas ainda assim havia a questão do excesso de temperatura, afinal, ferveu e o líquido de arrefecimento havia praticamente sumido do reservatório e do radiador.
Percebi que o líquido vazava pelo corpo da válvula termostática quando em funcionamento e quando a coisa tava séria o líquido saia pelo respiro do reservatório.
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| Líquido de arrefecimento (rosa) vazando pela conexão da válvula termostática |
Válvula termostática: corrosão do corpo
Levei ao mecânico e vimos que havia uma corrosão no corpo da válvula e por isso começou a vazar o líquido pela mangueira de entrada.![]() |
| Detalhe da corrosão no conector da termostática |
Para resolver o problema comprei uma válvula nova (paralela) e importei o corpo de uma válvula usada, pois a minha estava "corroída" e essa peça não é mais encontrada facilmente por aqui. Para a minha surpresa a válvula paralela não encaixou no corpo, pois é maior do que a original. O fornecedor até orientou a fazer uma adaptação, mas achei melhor manter a peça anterior.
Limpei e usei a válvula antiga juntamente com o sensor de temperatura no corpo novo que havia importado. Fizemos uma adaptação também na vedação usando o o'ring antigo com um pedaço de câmara de pneu, que depois foi substituído por um oring de "viton" que suporta até 200°C.
Por fim, não houve mais vazamentos e o serviço ficou ótimo.
Bomba d'água: resolvendo o problema
No caso da Shadow 600, após diagnosticar o problema da bomba e pesquisar bastante, entendi que a melhor forma de resolver era através do recondicionamento, uma vez que uma nova (só original) é extremamente cara e comprar usada é muito arriscado já que a mão-de-obra exige basicamente a retirada do motor do quadro da motocicleta, ou seja, além da alta complexidade para trocar a peça temos também um esforço enorme.![]() |
| Rafael Gouveia trocando a bomba d'agua da Serafina, minha Shadow 600 |
Enviei a minha antiga e recebi uma recondicionada, que confesso que parecia praticamente nova. Soltamos o motor do quadro e fizemos a troca pela peça recondicionada e tudo certo.
E o pinga-pinga continua: substituição das mangueiras e o'rings dos canais
Parecia tudo em ordem, mas depois de um tempo as mangueiras que chegam até a termostática começaram a vazar nas conexões assim como naquele canal que tem entre os 2 cilindros (water join). Retirei as mangueiras e fui até uma loja de mangueiras industriais e comprei 2 metros de uma com o mesmo diâmetro interno e que tivesse boa resistência à temperatura. Também troquei os o'rings da "water join", que é a conexão do arrefecimento entre os cilindros. Também usei o'ring de "viton".![]() |
| Detalhe da conexão entre os dois cilindros com vazamento (water join) |
O fato é que a bomba nova estava proporcionando maior pressão e circulação do líquido e s borrachas, conexões e também as vedações já estavam desgastadas e ressecadas. Essa combinação é perfeita para vazamentos, principalmente após alcançar a temperatura de trabalho do motor.
O líquido desapareceu! E agora? Limpando o radiador, por fora.
Já não havia mais o que fazer a esta altura e a moto ainda perdia líquido.Era só pegar uma estrada mais longa e dar uma puxada que lá se ia o líquido. Diferentemente das vezes anteriores onde eu via o líquido sendo expurgado pelo dreno, agora simplesmente sumia.
Isso não acontecia em baixas velocidades como na cidade, mas andando na estrada o líquido ia embora relativamente rápido.
Vamos lá então a mais pesquisa e conversar com vários colegas. Foi então que conheci um colega lá do Sul que trabalha com tratores. Ele sugeriu que devesse olhar com uma lanterna através das aletas do radiador e verificar se a luz estava passando para o outro lado. Fiz o teste e a resposta foi "não".
A solução foi bastante simples, pois era apenas lavar a colmeia com sabão e produtos desengordurantes em um lava rápido com o leque bem aberto e baixa pressão. Para isso eu retirei a proteção e deixei o radiador todo exposto.
Depois desta simples lavagem esse problema melhorou muito a ponto de eu não conseguir mais notar a redução do líquido de arrefecimento.
E lá se vai minha felicidade, afinal, onde está o líquido?
Lembra que eu disse que era uma "saga"? Pois bem.Fiz uma viagem de 200km e na volta a surpresa: onde está o
Essa viagem eu fiz com garupa e vim bem "forte", mantendo média de 120km/h... não dei sossego para o motor e com isso o problema voltou. Você deve se perguntar se eu estava querendo quebrar a motocicleta, mas temos que entender que ela é feita para isso. Não pode simplesmente desaparecer o líquido de arrefecimento só porque eu dei uma forçada a mais no motor. O problema era bem menor do que antes, mas mesmo assim persistia.
O bendito insistia em sumir e comecei então a me apegar a detalhes e coisas menos prováveis como a concentração do líquido, marca e até mesmo suspeitar de furos ou algo como uma abraçadeira solta. Estava usando um líquido concentrado, colocando um pouco menos de água que a recomendação... só para garantir.
Importante dizer que tem vários fluidos péssimos no mercado. Escolha uma marca boa e antes de colocar passe o dedo e veja se é "viscoso". Os fluidos falsos são como água e os bons são viscosos.
O fluido, dentre vários benefícios, aumenta a temperatura ebulição de 100°C para 125°C... 135°C, dependendo da pressão. Isso é muito importante, pois no caso da Shadow estamos falando de temperatura de trabalho de 125°C, ou seja, caso coloque água pura vai acabar baixando o nível com o tempo via evaporação.
Querendo colocar fogo na motocicleta: a tampa do radiador
Dentre uma coisa e outra, conforme relatei acima, fiz a troca da tampa do radiador duas vezes. Durante minhas pesquisas sempre havia alguém dizendo que era a tampa que estava perdendo eficiência e por isso deveria trocar.Havia também a suspeita de haver algum furo no sistema, mas sinceramente eu não acreditava nisso, pois não havia nenhum indício de que o fluido estava vazando. Procurei uns lugares para testar o sistema e a tampa, pois eu já não tinha mais o que fazer. Era um furo? Era uma conexão solta? Junta queimada?
O problema é que mesmo as oficinas especializadas não sabem muito bem como testar. Estava a ponto de comprar um kit de teste só para matar a curiosidade, afinal, já estava a ponto de colocar fogo na moto e sair andando, sorrindo por ter me livrado dessa provação.
Li manual, sites estrangeiros e depois de muita pesquisa na internet resolvi comprar uma tampa de 1.3 bar de Subaru. Parece loucura, mas não é e vou explicar.
A Shadow trabalha com pressão interna de 0.9 bar a 1.3 bar, mas essas tampas paralelas que compramos aqui parecem não funcionar muito bem. Creio que acabam abrindo antes dos 0.9 bar ou além da conta. Minha suposição era de que a calibragem das tampas vendidas aqui estava errada ou fora de especificação.
A tampa que comprei abre com 1.1 bar e vai até 1.5 bar, que é 0.2 bar a mais que o máximo suportado pelo sistema, ou seja, nada que vá fazer explodir o radiador e assim eu garanti certa margem de erro.
Isso me ajudou a ter certeza de que o problema era a tampa, pois não tive mais problemas com isso, mesmo depois de rodar mais de 200 km em um dia quente.
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| Tampa de 1.3 bar par Subaru |
Afinal, qual era o problema?
Acredito que o antigo dono teve o mesmo problema que eu e por isso desistiu da moto. Na realidade não estamos falando de um problema isolado e sim de uma combinação de fatores.- Combinação da colmeia suja, bomba d'água desgastada e tampa do radiador ruim faziam com que a temperatura do líquido subisse demais e assim era expurgada pelo respiro do reservatório de expansão.
- Válvula termostática com corrosão no corpo fazia o líquido vazar pela conexão.
- O'rings, presilhas e mangueiras ruins permitiram que o líquido vazasse pelas conexões.
A limpeza da colmeia do radiador deve ter ajudado uns 80%, mas ainda havia o problema da tampa, que foi resolvida.
Importante dizer que o líquido só entra em ebulição bem acima da temperatura da água porque ele está pressurizado e contém aditivos que auxiliam a elevar a temperatura de ebulição, porém, se temos algum furo ou, como no caso, abertura antecipada do sistema, a pressão cai e por isso o líquido entra em ebulição antes do programado.
Eu disse que era uma saga, não disse!?
Se você teve paciência e tempo para ler até aqui é porque é um guerreiro e amante de motocicletas e eu fico muito feliz por isso.
Espero que possa ter contribuído de alguma maneira e que você possa resolver ou evitar problemas como os que eu enfrentei.
Grande abraço e até a próxima!





